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Se você conhece o mínimo do cinema de super-heróis, então você deve saber quem é Zack Snyder.

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O cineasta pode até ter dado muito dinheiro para os cofres para a DC Comics com sua versão da luta entre os dois dos seus personagens mais icônicos, ‘Batman Vs Superman: A Origem da Justica’, e a história de origem do mais poderoso dos super-heróis, ‘O Homem de Aço’, além de ter angariado uma legião de admiradores (seguidores é a palavra), mas entre grande parte dos cinéfilos e a crítica especializada, ele não é tão querido: odiado por alguns, defendido por outros, Snyder é um daqueles personagens controversos da vida real que o público ama criticar.

A carreira do diretor começou cedo (e muito bem). Em 2004 lançou o seu remake do clássico de George A. Romero ‘Madrugada dos Mortos’, que ajudou a atualizar o gênero dos zumbis, popularizando uma recente mudança nas criaturas aterrorizantes: a supervelocidade. A característica foi vista pela primeira vez em ‘Extermínio’, de Danny Boyle, lançado em 2002 -com a participação de um então jovenzinho Cillian Murphy nas ruas vazias de Londres; mas só alcançou o mainstream mesmo quando o conto de terror sobre o consumismo, feito pela primeira vez em 1978, chegou aos cinemas no começo da década de 2000.

O diretor se jogou no mundo dos quadrinhos pela primeira vez em 2009, contrariando tudo aquilo que já havia sido feito antes e alcançando, com primor, o olhar do grande público. Foi a versão cinematográfica de ‘Watchmen’ que deixou Snyder sob os holofotes dos fãs de quadrinhos: a versão até que não foi desprezada pela crítica (hoje, ela torce o nariz). Tendo recebido 4 estrelas na review do prestigiado resenhista Roger Ebert e outras 3 na do jornal britânico ‘The Guardian’, é fácil dizer que o live-action do polêmico grupo de super-heróis deu muito mais do que certo.

Henry Cavill com Superman — Foto: Divulgação
Henry Cavill com Superman — Foto: Divulgação

Na perspectiva de boa parte dos fãs da graphic-novel de Alan Moore, a adaptação foi um grandíssimo horror. As decisões de Snyder que mudam o ‘sentido principal’ da trama, que em sua essência era desconstruir a imagem polida dos super-heróis, acabou fazendo o popular cineasta estar na mira dos nerds. Com a impossibilidade de transformar todos os personagens que protagonizam a história em verdadeiros desgraçados odiosos — como acontece nos quadrinhos, Zack virou um alvo fácil.

Os próximos lançamentos do cineasta apenas o afundaram mais ainda na lama do apreço popular: ‘Sucker Punch — Mundo Surreal’ até hoje é motivo de discórdia entre cinéfilos. ‘Homem de Aço’ ainda divide opiniões — há quem o julgue uma obra ‘decente’, que faz jus ao personagem, apresentando Henry Cavill com o uniforme do kryptoniano.

Quando ‘Batman Vs Superman: A Origem da Justiça’ chegou aos cinemas, em 2016, Zack Snyder virou inimigo declarado dos fãs de super-herói e dos cinéfilos: os 29% de aprovação no Rotten Tomatoes não deixavam dúvidas: o grande vilão do cinema era ele.

O cineasta Zack Snyder no set de Liga da Justiça (2017) — Foto: Reprodução
O cineasta Zack Snyder no set de Liga da Justiça (2017) — Foto: Reprodução

Quando ‘Liga da Justiça’ foi anunciado, a ansiedade era grande: há quem tivesse certeza que seria uma produção de qualidade duvidosa, outros queriam acreditar que dessa vez o ‘supervilão’ finalmente acertaria a mãp. Entretanto, a história de Zack Snyder teve uma reviravolta que o público jamais imaginou que pudesse acontecer – e que foi o momento mais crítico da sua vida.

Em março de 2017 o mundo parou para o cineasta: Autumn Snyder, sua filha de 20 anos — irmã de outros sete, entre filhos biológicos e adotados do astro — havia tirado a própria vida.

A menina era a luz dos olhos do pai. Adotada por ele e pela então esposa, Denise Weber, quando a pequena tinha menos de um ano, Autumn era uma escritora nata. Segundo a mãe, só sabia “escrever, escrever e escrever”. Era uma assídua filantropa (chegou a fazer um projeto de caridade para ajudar mães que moravam nas ruas em 2014) e ativista, e batalhava contra a depressão há bastante tempo.

Chegou ainda a escrever um livro de ficção-científica, que infelizmente não teve a chance de terminar.

O diretor comenta com carinho uma lembrança única que guarda da filha: “Ela tinha uma frase que ela colocava em tudo que ela escrevia. Em tudo mesmo. Era uma frase de Chuck Palahniuk: ‘Nós todos morremos. O objetivo não é viver para sempre, o objetivo é criar algo que faça isso [seja eterno]”.

ATENÇÃO: Se você ou alguém que você conhece está lutando contra a depressão ou pensamentos suicidas, entre em contato pelo telefone 188; o serviço funciona 24 horas. O CVV – Centro de Valorização da Vida realiza apoio emocional e prevenção do suicídio, atendendo voluntária e gratuitamente todas as pessoas que querem e precisam conversar, sob total sigilo.

A filha de Zack Snyder, Autumn Snyder, falecida em 2017. — Foto: Reprodução
A filha de Zack Snyder, Autumn Snyder, falecida em 2017. — Foto: Reprodução

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A memória de Autumn ficou marcada naquela obra, escrita por ela. A família espera um dia poder publicá-la e reverter seu lucro completamente para instituições de caridade, como, com certeza, a filha de Snyder teria desejado.

Ainda em entrevista, o cineasta conta que sempre gostava de animar a menina, que é irmã de outros sete pequenos Snyders, dizer o quanto ela era importante e inteligente, ao que ela simplesmente respondia um fraco e baixo “é…”. O choque veio de repente: ele estava finalizando as produções de ‘Liga da Justiça’ quando recebeu a notícia. Ele e a atual esposa, Deborah Snyder (creditada como produtora do filme que reuniu o Batman, Superman, a Mulher-Maravilha, O Cyborg e o Flash no mesmo frame), resolveram dar um hiato das produções para, de alguma forma, viverem o luto da perda.

Foi apenas nesse momento que o público começou a retirar a máscara de vilão criada para o cineasta e substituí-la por um rosto real – muito longe de qualquer característica cartunesca.

Zack Snyder dando autógrafos para fãs. — Foto: GettyImages
Zack Snyder dando autógrafos para fãs. — Foto: GettyImages

No momento do caos, Joss Whedon, cineasta que previamente havia trabalhado com a concorrente Marvel, substituiu o diretor original. Em meio ao caos, Zack queria que a notícia do abalo familiar ficasse em segredo. Mas não teve como em um mundo imerso na superexposição e das redes sociais.

“Eu sei que os fãs vão estar preocupados quanto ao futuro do filme, mas tem outras sete crianças que necessitam de mim. No fim, é só um filme. Um bom filme, mas é só um filme”, declarou o diretor, esclarecendo as dúvidas do público.

As mensagens de apoio dos fãs começaram a chegar, e o tal ‘cancelamento’ que Zack era vítima parou de ser o protagonista da história. Agora, apenas o mais importante era necessário: a família.

Nesse turbilhão de emoções, nos estúdios da DC, o caos acontecia: Joss, que não sabia lidar muito bem com as pressões da produtora, cedeu às diversas pedidas de mudanças de roteiro. Em apressadas refações do roteiro e regravações, o filme ficou pronto.

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Em uma sessão especial, reservada para os produtores, Deborah Snyder e Christopher Nolan (amigo próximo do diretor e também parte da produção) assistiram ao lançamento — lotado de alterações que tiraram a essência do trabalho do cineasta original e se preocuparam. “Você não pode assistir ao filme”, avisaram os dois a Zack.

Zack Snyder e a esposa Deborah Snyder na premiere de 'Rebel Moon — Parte 1: A Menina do Fogo'. — Foto: GettyImages
Zack Snyder e a esposa Deborah Snyder na premiere de ‘Rebel Moon — Parte 1: A Menina do Fogo’. — Foto: GettyImages

“Parece dramático, mas é verdade, iria quebrar o coração dele”, revelou a esposa em entrevista.

O resultado da ‘nova versão’ do projeto original — e que fora lançado pela DC Comics e pela Warner Bros. Studios foi um verdadeiro desastre: 39% de aprovação crítica no Rotten Tomatoes e uma enxurrada de críticas negativas de todos os lados. E pior: aos olhos de quem não sabia do caos, a culpa era, pelo menos parcialmente, de Snyder.

Foi quando os fãs de quadrinhos — mesmo aqueles que, há pouco tempo, desgostavam do diretor se juntaram em um movimento coletivo nas redes sociais e subiram a hashtag ‘#ReleaseTheSnyderCut’ ou ‘Lancem a versão de Snyder’.

Entre tantos problemas, uma luz no fim do túnel apareceu para ele: o apoio dos fãs lhe deu a chance de, em 2021, lançar a versão original de seu projeto — que no final conta com uma bonita dedicatória à filha: “Para Autumn”.

Pôster de 'Liga da Justiça de Snyder Cut'. — Foto: Divulgação
Pôster de ‘Liga da Justiça de Snyder Cut’. — Foto: Divulgação

A família Snyder. — Foto: Reprodução
A família Snyder. — Foto: Reprodução

Hoje, Zack Snyder deixa de ser o ‘vilão’ dos fãs de heróis e passa a, na verdade, transformar–se em seu oposto: um super-herói, um super-homem, um super-pai e, de alguma forma, um super-diretor.

Seu mais recente lançamento foi ‘Rebel Moon — Parte 1: A Menina do Fogo’, um novo capítulo de Star Wars.

Confira abaixo o trailer de ‘Homem de Aço e de ‘Liga da Justiça de Zack Snyder’, o seu primeiro e último trabalho na DC.

*Com edição de Luís Alberto Nogueira

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