Após quatro filmes aclamados por público e crítica, John Wick se tornou uma das franquias mais celebradas de Hollywood nos últimos anos. Seguindo o curso natural da indústria, derivados entraram em produção e o primeiro deles a chegar ao público é O Continental: Do Mundo de John Wick, série que volta ao passado para expandir esse universo.

Grosso modo, é possível apontar três grandes chamarizes para a saga de John Wick: o carisma de Keanu Reeves, pancadarias bonitas de se ver, e a mitologia em torno do submundo de assassinos profissionais. Na falta do primeiro, O Continental investiu tudo nos outros dois, e o resultado é um retorno que busca novidade, mas mantém o gosto familiar. Ao menos por este episódio, o único que vimos até o momento.

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Como o título indica, a série gira em torno do hotel que abriga assassinos e serve como um dos cenários na quadrilogia dos cinemas. Porém, ela se volta ao passado da instável Nova York da década de 1970 e acompanha figuras como Winston, personagem de Ian McShane nas telonas, que ganha uma versão jovem por Colin Woodell. Quando um roubo no Continental coloca a própria vida, e a da família que lhe resta, em risco, ele precisa retornar ao mundo dos assassinos – assim como o próprio John Wick fez no longínquo primeiro filme.

Para justificar a existência da minissérie, a primeira das três partes não perde tempo e estabelece uma dinâmica baseada em resgatar assinaturas da franquia sem se esquecer que essa é uma nova história. Algo que fica claro desde a ambientação, que transforma o mundo luxuoso, pulsante e banhado em neon de Wick em um pesadelo urbano devido à decadência pós-Guerra do Vietnã. O cenário perfeito para um conto de criminosos tentando sobreviver e triunfar.

Não que o luxo tenha sido abandonado, muito pelo contrário. O próprio hotel, e esse universo dos assassinos de aluguel, mantêm a finesse estabelecida anteriormente. Porém, o mundo que cerca tudo isso é sujo, empoeirado, e muitos dos personagens de destaque vêm de lá. Um choque entre realidades que se reflete também nos caminhos que a história toma.

O equilíbrio entre novo e velho chega também à narrativa, que divide suas atenções. Enquanto os filmes giram em torno do xadrez bélico entre John Wick e o alvo da vez, O Continental diversifica ao apostar em diferentes núcleos. Uma escolha que permite ao público experimentar outras perspectivas desse universo, mas que não têm uma progressão fluida no capítulo de estreia.

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A primeira, e principal, é a de Winston, seu irmão Frank (Ben Robson) e Cormac (Mel Gibson), então gerente do Continental. Sem spoilers, é possível dizer que esse é o segmento mais próximo das jornadas de John Wick nos cinemas e o mais caprichado. Repleta de traições, mistérios e surpresas, a dinâmica do trio é interessante o suficiente para manter a tensão ao longo da estreia. Especialmente graças a um texto que abraça clichês e conquista ao fazê-lo sem um pingo de vergonha.

Os demais núcleos giram em torno de um grupo de contrabandistas de armas que negociam com pessoas ligadas ao Continental, e policiais que investigam o suspeito hotel. Por si só, ambos são interessantes, especialmente por trazerem ângulos que nunca tiveram vez nos cinemas – afinal, os policiais não eram figuras frequentes em John Wick.

O interesse aumenta graças aos próprios personagens, que despertam simpatia por conta do elenco e do texto, que os apresenta com passados e motivações. O problema está na forma como eles são adicionados e utilizados nesse primeiro episódio. As mudanças entre a trama principal e as demais não contam com transições fluidas e parecem apenas preparativos para os próximos capítulos, quando deveriam ganhar mais importância.

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Tiro, porrada e armas… Muitas armas

O público pode respirar aliviado pois O Continental manteve a principal assinatura de John Wick: a ação. Consciente de que não poderia errar nesse quesito, a produção não faz feio e traz cenas de pancadaria capazes de colocar um sorriso no rosto de qualquer fã do gênero.

Apesar das limitações de uma produção televisiva, as pancadarias retornam com o ar de espetáculo que ganharam nos cinemas. As lutas enchem os olhos graças à combinação de grandes performances de atores e dublês, com uma direção que as valoriza. Especialmente porque os responsáveis seguem a deixa dos filmes e brincam com a intensidade e até os tons dos combates, que ganham contornos de humor mórbido e até aflição (o que dizer daquela execução?).

Acertando a mão no principal ingrediente dessa receita, O Continental começa com o pé direito. Ao resgatar algumas das principais assinaturas, a série dá vida a algo que poderia ser tão sem alma quanto um “John Wick sem John Wick”. Resta saber para onde essa jornada seguirá nos próximos dois episódios após um gancho tão surpreendente.

O Continental: Do Mundo de John Wick está disponível para streaming no Amazon Prime Video. A série ganha novos episódios às sextas-feiras

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