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Vencedor Prêmio Casa de las Américas e referência sobre temas relacionados à ancestralidade africana e os efeitos da escravidão no Brasil, “Um defeito de cor” já está indo para a sua trigésima edição. Foram 100 mil cópias desde o lançamento, mas o número vai aumentar significativamente com o carnaval. A edição mais antiga do romance chegou a esgotar duas vezes entre o desfile, na noite da segunda-feira (12), e a manhã desta terça-feira (13). O título sempre foi um sucesso de crítica e público, mas o desfile da Portela fez o épico de quase mil páginas furar a bolha e ser apresentado a um público mais amplo.

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Lista de livros mais vendidos no site da Amazon — Foto: Reprodução
Lista de livros mais vendidos no site da Amazon — Foto: Reprodução

Pautado em intensa pesquisa documental, o romance conta jornada de Kehinde, mulher negra que, aos oito anos, é sequestrada no Reino do Daomé, atual Benin, e trazida para ser escravizada na Ilha de Itaparica, na Bahia. Ela repassa as desventuras de sua vida de escrava até a sua alforria. A personagem foi inspirada em Luísa Mahin, que teria sido mãe do poeta Luís Gama e participado da célebre Revolta dos Malês, movimento liderado por escravizados muçulmanos a favor da Abolição.

– Desde o lançamento, “Um defeito de cor” tem vindo numa crescente, acompanhando uma mobilização maior do Brasil em torno das questões raciais, em busca da história não oficial de nosso país colonizado – lembra Lívia Vianna, editora-executiva do Grupo Editorial Record, que publica o livro no Brasil. – Ao longo do ano de 2023 foram muitas conversas com a Portela, Ana Maria Gonçalves se aproximou muito da Escola. Tivemos um evento de autógrafos na Quadra onde o livro esgotou.

Vianna conta que a rainha de bateria da Portela, Bianca Monteiro, lançou um curso sobre Kehinde, que contou com a participação da escritora. A comunidade da Portela como um todo abraçou o livro – e vice-versa.

– Foi muito bonito ver essa adesão de Ana Maria – lembra a editora. – Ela se tornou uma pessoa querida da Escola, muito presente, participando de oficinas e clubes de leitura.

Desfile da Portela — Foto: Alexandre Cassiano
Desfile da Portela — Foto: Alexandre Cassiano

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O enredo conta a mesma história do romance, mas de um jeito um pouco diferente. Os carnavalescos André Rodrigues e Antônio Gonzaga sonham com uma carta do advogado abolicionista Luiz Gama para sua mãe, Luíza Mahim (Kheinde no livro de Ana), a partir das lições deixadas por ela.

A escola teve a participação de nomes importantes da luta pela igualdade racial, como o ministro Silvio de Almeida (Direitos Humanos) e o ator Lázaro Ramos, que encarnaram Gama. Já Kheinde apareceu em diferentes fases vividas pelas mães dos carnavalescos. O livro ajuda a entender questões históricas do país, como o racismo. No enredo, o tema também foi debatido, em especial com a enaltação à histórica porta-bandeira Vilma Nascimento, vítima de racismo no ano passado.

O desfile deu destaque a mulheres que perderam os filhos para a violência no Rio, como Marinete da Silva, mãe da vereadora Marielle Franco, assassinada em 2018; ou Jackeline Oliveira, mãe de Kathlen Romeu, grávida morta no Lins, em 2021.

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Capa da edição especial de "Um defeito de cor", lançada em 2022 — Foto: Reprodução
Capa da edição especial de “Um defeito de cor”, lançada em 2022 — Foto: Reprodução

Em 2022, “Um defeito de cor” ganhou uma edição especial, em novo projeto gráfico, que inclui obras da renomada artista plástica Rosana Paulino. A edição apresenta ainda o conto afrofuturista inédito “Ancestars”, a primeira narrativa de Ana Maria Gonçalves publicada desde o lançamento de “Um defeito de cor.”

– Interessantíssimo de ver como manifestações culturais tão diversas como a escola de samba e a literatura se encontram no asfalto e tragam essa explosão de cores, de histórias e esse enredo tão rico – diz Sonia Jardim, presidente do Grupo Editorial Record. – Só na Marquês de Sapucaí para acontecer um fenômeno desses.

Ainda em 2022, o livro foi reinterpretado em forma de exposição, no Museu de Arte do Rio (MAR). A mostra reuniu 400 obras de mais de cem artistas, de vários estados brasileiros e do continente africano, entre pinturas, desenhos, esculturas, vídeos e instalações.

'Fluxo e refluxo (barco de açúcar)', de Tiago Sant'Ana, em cartaz na exposição 'Um defeito de cor' no Museu de Arte do Rio — Foto: Divulgação/Tiago Sant'Ana
‘Fluxo e refluxo (barco de açúcar)’, de Tiago Sant’Ana, em cartaz na exposição ‘Um defeito de cor’ no Museu de Arte do Rio — Foto: Divulgação/Tiago Sant’Ana

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