Racismo ocorre quando a branquitude usa pactos, por vezes silenciosos, para manter seusprivilégios

Na minha infância eu não era considerada bonita, descolada ou engraçada.

Era magricela, alguns até me chamavam de Olívia Palito. Isso era tão intenso que eu achava que se engordasse eu seria melhor aceita. Talvez me escolhessem como par na festa junina, talvez escolhessem sentar-se do meu lado por querer e não mais seria porque era o lugar que tinha sobrado. Comecei a comer mais do que precisava para “ganhar corpo” e ser olhada como bonita. Não adiantou.

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A televisão nessa época era de tubo e tinha uma antena que ficava em cima da TV. Era comum quando utilizávamos a TV na escola ouvir que eu podia doar um pedaço do meu cabelo para melhorar a imagem. Comparação do meu cabelo com esponja de aço era frequente. E sempre tinha uma mãe de colega que sabia uma receita ótima para “abaixar”, “controlar” ou “domar” meu cabelo. Usei meu cabelo preso até os 22 anos. Depois passei um bom tempo indo a salão para fazer escova e chapinha. Demorou até eu soltar o meu crespo.

Utilizei a inteligência como ferramenta para ter amigos na escola. Estudava muito para ter boas notas depois que percebi que esse era o caminho para minha aceitação. Os colegas vinham tirar dúvidas, pediam meus cadernos com anotações coloridas, pediam “cola” nas provas, e assim eu finalmente me sentia parte de algo. Mas era só até aí, não passava disso.

Na fase que começam os namoros por um bom tempo eu fui a “cupido”. Levava os recados, descobria quem estava interessado em quem, enfim, juntava os casaizinhos. Porém, comigo não tinha romance, era só curtição, como eu não queria “só curtição” seguia sem par.

Fui adolescente nos anos 90 e sabia todas as coreografias de axé. Fazia aula de Jazz Dance, fiz aula de ginástica e capoeira. Sabia dançar bem. Estranhamente nas festas, eram outras que se destacavam, mesmo eu achando que dançava muito bem. Só me chamavam quando assunto era samba. Isso foi me inibindo e até hoje sou contida para dançar.

Eu amava cantar na infância e adolescência. Até hoje tenho uma voz potente que utilizo para gritar nos jogos do meu filho. Na juventude ia para a igreja na esperança de um dia entrar na banda do grupo jovem. Nunca aconteceu. Mesmo me ouvindo cantar, chamavam outras meninas. Compreendi que não era boa o suficiente e parei de sonhar com isso.

Cresci com a ideia de que meu corpo não era bom, magro ou gordo. Meu cabelo não era bom, preso ou com chapinha. Que para ter amizades precisava ter algo a oferecer e que eu não era interessante para namorar, só para “ficar”. Nenhum talento meu era suficiente para que eu me destacasse. Conhecia muita gente, frequentava vários espaços, mas tinha poucos amigos e preferia mesmo ficar sozinha em casa estudando.

Eu me sentia enjeitada, me achava feia, era discreta, tentava não ser um peso nos espaços que estava porque me sentia sempre deslocada, excluída das rodas de conversa, no eterno não lugar. Também não era legal parecer inteligente demais, isso fazia com que me vissem como chata, que queria aparecer e me afastava de quem não ia tão bem na escola. Aquilo que eu me destacava de fato, tinha que manter comigo e só utilizar quando alguém perguntasse.

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Depois de adulta entendi que nada me faria ser bonita, descolada, talentosa e legal como uma menina branca “naturalmente” é aos olhos dessa sociedade que sustentou por mais de três séculos um regime que escravizava negros e negras.

Entendi como o racismo bloqueou meus sonhos e me travou por anos de sonhar alto. Até os dias atuais acho que não mereço o que é realmente bom pra mim. Não sou o suficiente para ocupar espaços de poder, decisão ou de status. Marcas de uma vida repleta de microagressões racistas que podou meus desejos e ambições e instalou em mim a síndrome do impostor.

Assistir Big Brother Brasil e ver as meninas brancas reproduzindo o que eu sofri ao longo da vida de maneira concentrada desperta vários gatilhos. Ver o que o Davi tem sofrido tem sido muito doloroso. Os talentos que ele tem, de organização, limpeza, e culinária são constantemente invalidados apesar de se aproveitarem disso.

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Todos na casa escutam conversas na surdina e levam para outros como “olha o que eu descobri”. Quando ele escuta algo e vai questionar direto com o envolvido é visto como se fosse muito pior do que aqueles que fazem escondido. Fizeram uma estratégia para deixá-lo isolado, sentindo que tudo que faz é errado, portanto o melhor é ficar longe e quieto.

Tentam convencer aos seus aliados e aliadas que ele não presta, não é digno de ter amizades e que se manter perto dele os faz virar alvo de voto. O grito dele para se defender é visto como agressivo, selvagem, brutal, violento… Aqueles que dizem que ele merece apanhar, que ele pode ir embora já que ganhou alguns prêmios, que julgam o caráter dele, que tentam afastar seus amigos, que julgam seu relacionamento, que menosprezam seu trabalho, esses se avaliam como cidadãos de bem, donos da moral e dos bons costumes. Gostam que ele os sirva, mas não que se posicione.

Por anos a opressão racial construiu em mim o sentimento de insuficiência e de não pertencimento. Vejo no choro do Davi a mesma dor. Assim como eu na infância, ele não percebe que o que sofre é por causa de sua cor. Nunca sequer cogitou essa possibilidade. Infelizmente o desconhecimento, a falta de letramento racial, não o protege. Ao contrário, ao não identificar as razões do que tem suportado, ele se culpa e sofre ainda mais. Essas dores deixam marcas na alma.

Espero que essa exposição traga à tona o debate de que o racismo não acontece somente com xingamentos ou agressão física. Ele ocorre quando a branquitude se utiliza de pactos, por vezes silenciosos, para manter seus privilégios. É sórdido, discreto, difícil de provar, fácil de manipular, mas é racismo sim. E destrói pouco a pouco os nossos potenciais. Quem faz diz que não percebeu ou que é exagero de quem denuncia.

Agora que escancarei como esse tipo de racismo afeta negativamente nossas vidas, espero que um pedido público de desculpa dessa branquitude privilegiada não seja o suficiente para comover o público e mais uma vez nos colocar na invisibilidade e esconder as nossas dores.

 

Edição: Pedro Carrano

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