O regime militar brasileiro (na pessoa do então general Emílio Garrastazu Médici) participou de uma ação conjunta com os Estados Unidos (durante a presidência de Richard Nixon) com o objetivo de desestabilizar o governo liderado por Salvador Allende e eclodir o golpe militar no Chile, como aponta documentos.

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Há exatos 50 anos, Augusto Pinochet causou a destruição do mais antigo sistema democrático da América Latina. O Brasil, por sua vez, foi o primeiro país a reconhecer a ditadura militar no Chile.

Nesse contexto, em 1970, o Brasil, que era regido pelo sistema militar devido o golpe de 1964, tomou um susto quando o candidato socialista Salvador Allende foi eleito como presidente do Chile.

Desse modo, além de encontrar-se imerso em um contexto geopolítico marcado pela Guerra Fria, o Chile ocupava uma posição geográfica na mesma região do continente americano que abrigava os Estados Unidos, uma das principais nações do mundo com sistema econômico capitalista. Adicionalmente, o Chile é vizinho territorial do Brasil, país que havia adotado medidas autoritárias em resposta a uma suposta “ameaça comunista,” mesmo que essa ameaça nunca tenha se materializado de fato.

Brasil participou da destruição da democracia do Chile

Numerosos registros de agências de inteligência provenientes dos Estados Unidos, do Chile e do Brasil ressaltam o envolvimento do governo brasileiro no golpe militar no Chile, em acabar com a ordem democrática e no respaldo ao golpe liderado por Augusto Pinochet em 11 de setembro de 1973, no Chile.

Esse acontecimento é, sem dúvidas, um capítulo do passado que continua a assombrar, persistindo na tristeza das vítimas desaparecidas, tanto chilenas quanto brasileiras, e na narrativa revisionista que atualmente permeia ambas as democracias.

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O antídoto para essa sombra histórica reside no confronto direto com essa história complexa e controversa. A responsabilidade de reconhecer o papel do Brasil no apoio ao golpe contra Salvador Allende e no subsequente regime autoritário que se instalou cabe a todos nós, como assinala o jornalista Roberto Simon, autor do livro “O Brasil contra a democracia: a ditadura, o golpe no Chile e a Guerra Fria na América do Sul”.

Este lamentável episódio da política externa brasileira não teve início em 1973, mas sim três anos antes, com a eleição do socialista Salvador Allende à Presidência do Chile. Desde o início de seu mandato, o Brasil estabeleceu canais de comunicação secretos com militares conspiradores, liderou uma intensa campanha diplomática para isolar o Chile internacionalmente, fez preparativos para oferecer apoio à oposição em um potencial conflito civil, abrigou terroristas de extrema direita, e muito mais.

Ditador chileno Augusto Pinochet. Imagem: Reprodução/YouTube

Em entrevista à BBC Brasil, Simon afirma que “O Brasil foi o primeiro país a reconhecer a junta militar liderada por Augusto Pinochet e ajudou na montagem do aparato de repressão do governo dele. O país garantiu apoio político, diplomático e econômico ao governo de Pinochet”.

Direitos humanos dilacerados

Pinochet é considerado um dos governantes mais violentos do mundo. O regime em questão deixou um rastro de devastação em termos de direitos humanos. O golpe militar no Chile assumiu a lamentável incumbência de privar da liberdade um contingente expressivo, ultrapassando a marca de 80 mil indivíduos detidos e sujeitos a atos de tortura que afetaram outros 30 mil cidadãos.

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De acordo com registros oficiais, a escalada da brutalidade perpetrada pelo governo de Pinochet culminou na trágica perda de vidas, com um trágico saldo de mais de 3 mil pessoas que encontraram um fim prematuro e violento.

Enquanto promovia essas intervenções políticas, o governo brasileiro ainda se apresentava como um paradigma para o Chile, uma vez que o Brasil havia protagonizado a deposição do governo democraticamente eleito de João Goulart, dando origem a um regime militar que, alegadamente, buscava fomentar um crescimento ordenado.

Durante a década de 1970, o Brasil emergia como a nação com o crescimento mais expressivo do mundo em termos proporcionais, e essa façanha era observada pelos chilenos como uma valiosa lição e um objetivo a ser almejado.

Brasil tem chance de se arrepender do apoio ao golpe militar no Chile

O governo brasileiro tem a chance de apoiar a democracia no Chile 50 anos após o golpe. Um primeiro passo foi dado com a colocação de uma placa em homenagem aos brasileiros mortos no golpe chileno na embaixada do Brasil e na Praça Brasil em Santiago.

No entanto, a ação é simplória. O Brasil tem a chance e deve reconhecer seu papel na tragédia e disponibilizar documentos relacionados. Isso poderia encorajar outros países, como os EUA, a fazer o mesmo.

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