Um novo estudo publicado na revista científica Ichnos analisou antigas impressões de pegadas na África do Sul. Os resultados indicam que os humanos que deixaram essas marcas podem ter utilizado sandálias de solas duras.

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A análise icnológica de três paleosuperfícies na Costa do Cabo, em paralelo com investigações neoicnológicas, sugere que é possível que os humanos tenham usado algum tipo de calçado ao percorrer superfícies arenosas durante a Idade da Pedra Média.

A icnologia é o estudo de traços fósseis. Em vez de se concentrar em restos corporais, como ossos ou dentes, a icnologia examina as marcas que os organismos deixam para trás, como pegadas, rastros, buracos de perfuração, e até mesmo coprólitos (fezes fossilizadas). Esses traços podem fornecer informações valiosas sobre o comportamento dos organismos, suas interações com o ambiente e uns com os outros. A icnologia, pode auxiliar na resolução desta incógnita ao buscar provas concretas de pegadas deixadas por humanos que usavam algum tipo de proteção para os pés.

As características peculiares das pegadas podem representar a prova mais antiga de que as pessoas usavam sapatos para proteger seus pés de pedras afiadas na Idade da Pedra Média. Mas cientistas hesitam em fazer afirmações definitivas sobre o uso de calçados no passado remoto.

Os autores do estudo não atribuíram uma data específica às marcas bem conservadas encontradas em placas de rocha em três locais distintos ao longo da Costa do Cabo. Contudo, eles especulam que os rastros encontrados em um local conhecido como Kleinkrantz podem ter entre 79.000 e 148.000 anos, baseando-se na idade de outras rochas e sedimentos próximos.

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Imagem: Charles Helm

O que distingue estas pegadas das marcas de pés descalços é o fato de que elas não apresentam dedos dos pés, e mostram “extremidades frontais arredondadas, bordas definidas e possíveis evidências de pontos de fixação de tiras”. Marcas similares estimadas entre 73.000 e 136.000 anos atrás foram encontradas em um local chamado Goukamma.

Os pesquisadores do estudo afirmaram: “Em todos os exemplos, as supostas pegadas parecem ter dimensões comparáveis às dos rastros de hominídeos”. Eles também observaram que “os tamanhos dos rastros parecem coincidir com os de jovens hominídeos ou pequenos adultos”.

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Para validar essa conclusão, os pesquisadores criaram suas próprias pegadas usando sandálias semelhantes a dois modelos historicamente usados pelo povo indígena San da África Austral, ambos atualmente preservados em museus. Os experimentos mostraram que o uso de calçados com sola rígida em areia úmida resultava em impressões com bordas definidas, sem marcas de dedos e com recortes onde as tiras de couro encontravam a sola – exatamente como as marcas encontradas em Kleinkrantz.

“Embora não consideremos as evidências definitivas, interpretamos os três locais […] como indicativos da presença de hominídeos calçados com sandálias de sola dura”, escreveram os cientistas. Eles sugeriram que um possível motivo para o uso de tal calçado poderia ser a necessidade de escalar rochas afiadas durante a coleta de alimentos na costa, evitando o risco de pisar em ouriços-do-mar.

“Na Idade da Pedra Média, um corte profundo no pé poderia ter sido fatal”, afirmaram. Nesse contexto, as sandálias teriam sido um recurso vital para a sobrevivência.

Apesar dos resultados encorajadores, os pesquisadores são cautelosos ao fazer declarações audaciosas. Isso se deve a uma série de fatores, incluindo a dificuldade em interpretar as marcas nas rochas e a ausência de descobertas de calçados reais da Idade da Pedra Média. Portanto, eles evitam fazer afirmações definitivas sobre suas descobertas, mas sugerem que “os humanos podem ter usado calçados ao se movimentarem pelas dunas durante a Idade da Pedra Média”.

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