Se você acompanha o noticiário, deve ter se deparado com as notícias a respeito do ciclone que ocorreu no Rio Grande do Sul, deixando diversos mortos e feridos com o desastre, além de um grande prejuízo material. O ciclone se formou no dia 4 de setembro. Até o final da tarde do dia 7 de setembro, houve 41 mortes confirmadas causadas pelo ciclonealém de milhares de desalojados e desabrigados. As mortes envolveram carros em áreas alagadas, eletrocutamento e até mesmo uma morte quando uma árvore caiu sobre um carro.

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O estado vem sendo palco de diversos ciclones desastrosos a longo dos últimos anos. O último grande ciclone ocorreu ainda em 2023, no mês de junho. Não só o estado, mas as regiões sul e sudeste enfrentam o fenômeno de tempos em tempos.

Os ciclones extratropicais

Geralmente, no Brasil ocorrem os ciclones extratropicais, que são, por definição, sistemas de baixa pressão atmosféricas formadas em latitudes médias e altas, fora dos trópicos.

“Ele é formado pelo contraste de massas de ar quente e frio. Parte da sua ação é sugar toda a umidade pra essa região do centro de baixa pressão e jogar para a atmosfera, resfriando e transformando a umidade em nuvens. É nesse processo que o fenômeno espalha chuva e vento”, explica à BBC Estael Sias, meteorologista do MetSul Meteorologia.

O fenômeno costuma surgir do encontro de massas e ar frias e quentes. Por isso, quando está calor, tempestades costumam vir junto à passagem de uma frente fria. Eles são uma maneira de regulação de pressão, temperatura e umidade entre as diferentes latitudes quando ocorre alguma grande variação em áreas próximas.

Embora seja como uma válvula de regulação de temperatura, em termos climáticos, para nós, pode causar grandes estragos. Com ventos podendo ultrapassar os 100 km/h, esses eventos podem causar um estado de calamidade por onde passam, desabrigando, ferindo e matando pessoas, além de um enorme prejuízo material.

Imagens dos efeitos do ciclone que atingiu o RS no último dia 4. (Imagem: Maurício tonetto/Secom).

Os ciclones estão ficando mais comuns?

Os ciclones extratropicais são extremamente comuns. No oceano, eles ocorrem o tempo todo. O incomum, na verdade, é ele chegar acima das cidades e causar tanto estrago.

“Ciclones extratropicais no Oceano Atlântico se formam toda semana, dezenas deles às vezes. Mas é comum que se formem perto do polo sul, muito distante. Por isso não mencionamos na previsão do tempo – um ciclone extratropical a mil quilômetros da costa não vai causar nenhum efeito para a população”, diz Sias.

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No entanto, alguns ciclones seguem trajetórias incomuns, atingindo áreas urbanizadas e causando estragos.

Durante o inverno, os ciclones extratropicais são mais propíciose a diferença de pressão pode ser maior, causando ciclones ainda mais poderosos.

Mas será que os ciclones estão ficando mais comuns?

“De 1998 a 2017, as tempestades, incluindo ciclones tropicais e furacões, ficaram atrás apenas dos terremotos em termos de mortes, matando 233 mil pessoas. Durante esse período, as tempestades também afetaram cerca de 726 milhões de pessoas em todo o mundo, o que significa que ficaram feridas, ficaram desabrigadas, deslocadas ou evacuadas durante a fase de emergência do desastre”, segundo a OMS.

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Embora haja dados sobre estragos e a presença deles em áreas habitadas, é difícil dizer se, de fato, os ciclones estão ficando mais comuns com as mudanças climáticas, muito embora muitos acreditem que sim. É necessário muitos anos de registros para que a análise seja rigorosa. Por exemplo, pode haver alguma sazonalidade que dure uma década, e os ciclones sejam mais comuns nesse tempo, e depois seus surgimentos caiam novamente. Nesse caso, precisaríamos de muitos anos de dados, em que a sazonalidade se repita muitas vezes, para detectar o padrão e analisá-lo.

Embora os estudos não sejam conclusivos sobre o efeito das mudanças climáticas na ocorrência ou no impacto dos ciclones, acredita-se que elas possam afetar sim. Há outros fatores que também afetam a ocorrência e a intensidade do fenômeno, como o El Niño, a Oscilação antártica negativa (o ar frio, de origem polar, alcança as latitudes médias por um enfraquecimento do vórtice polar) e o Atlântico sul, na altura do Brasil, com águas mais aquecidas do que a média.

Entretanto, alguns dos fatores que influenciam a formação e intensidade dos ciclones estão ficando piores com as mudanças climáticas. Então, embora não possamos afirmar se ciclones estão ficando mais comuns, podemos acreditar que sim.

Um fator que é importante para evitar vieses, no entanto, é o aumento na população. Por exemplo, supondo que determinado pesquisador analisou os dados e viu que os ciclones hoje causam mais mortes do que causavam nos anos 1990. O dado isolado pode indicar que os ciclones estão mais intensos. Entretanto, há outra explicação:

“Nos últimos 30 anos, a proporção da população mundial que vive em costas expostas a ciclones aumentou 192%, aumentando assim o risco de mortalidade e morbidade no caso de um ciclone tropical”, segundo a OMS.

Portanto, deve-se analisar os dados com cautela, a fim de se evitar viéses.

Sabemos que as mudanças climáticas estão tornando muitos fenômenos climáticos mais comuns ou mais intensos, e possivelmente os ciclones possam seguir o mesmo padrão. Entretanto, os cientistas dizem que é cedo para se afirmar com certeza se os ciclones estão ficando mais comuns.

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