Os supermercados tendem a ter margens financeiras maiores em 2024 à medida em que o efeito climático do El Niño acarreta mudanças em temperaturas que penalizam as lavouras, potencialmente elevando o preço dos alimentos, mas a um patamar não tão forte a ponto de comprometer os volumes de venda.

Como o consumo alimentar não é tão cíclico e o poder de compra da população está em um cenário mais benigno, os atacarejos podem repassar a alta desses produtos imediatamente para os clientes, contribuindo para um aumento do tíquete médio que faz a receita por metro quadrado subir, favorecendo as margens, segundo analistas ouvidos pelo Broadcast, sistema de notícias em tempo real do Grupo Estado.

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Ainda é cedo para bater o martelo de que haverá uma inflação alimentar neste ano, mas os alimentos não trarão alívio ao Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) como em 2023.

Na quinta-feira (11), a divulgação do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mostrou que o IPCA de dezembro cheio acelerou de 0,28% em novembro para 0,56%, resultado acima da mediana das estimativas do Projeções Broadcast, de 0,49%.

Segundo Luiz Carlos Almeida, analista da Pesquisa Mensal de Serviços do IBGE, houve aumento de preços principalmente em alimentos sensíveis ao clima. O índice oficial de inflação fechou o ano passado em 4,62%.

O analista Lucas Rietjens, da Guide Investimentos, diz que estudos mostram que o El Niño causa um efeito inflacionário. “Se isso vier a ocorrer, deve ter um impacto ligeiramente positivo nas margens dos players de varejo alimentar em 2024, pois são companhias que têm maior facilidade em repassar preço ao consumidor final”, afirma.

Os supermercados podem repassar uma potencial inflação por venderem a base alimentar, que é um consumo essencial, enfatiza Rafael Passos, sócio e analista da Ajax Asset.

Segundo ele, o risco de quebra de safra com o El Niño é grande, o que traria como consequência uma pressão nos preços das commodities agrícolas.

Embora preços mais elevados historicamente conduzam a volumes mais baixos, a XP considera que uma inflação em torno de 4% a 5% é benigna para o varejo alimentar, apoiando o crescimento da receita sem comprometer volumes.

O Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) não vê maior contribuição dos produtos agropecuários na inflação em 2024. “A ajuda para redução da inflação por meio dos alimentos não haverá. A dúvida é se haverá pressão inflacionária pelos alimentos, mas, por enquanto, não há indicativos de pressão generalizada mesmo com sinais de alta de preços em algumas cadeias”, avaliou o pesquisador e economista do Ipea José Ronaldo Souza Júnior.

Além disso, os analistas da XP Danniela Eiger, Rodolfo Margato e Gustavo Senday destacam que o poder de compra da população está melhorando gradativamente.

“Segundo dados do Procon, a Cesta Básica Brasil (incluindo produtos de higiene pessoal e limpeza) historicamente representa 76% do salário mínimo dos brasileiros. Porém, durante a pandemia, essa participação ultrapassou 100% (atingindo seu pico em julho de 2022) e tem sido revertido lentamente à média histórica ao longo de 2023”, escrevem, em relatório enviado a clientes.

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A melhora do consumo se dá pela queda da taxa Selic que propicia desalavancagem das famílias, reformas que acarretam um cenário mais favorável para emprego, e inflação controlada, segundo o analista Carlos Soares, da Mirae Asset.

Soares afirma que o preço dos alimentos impacta principalmente a linha de Like for Like (medida que compara as vendas brutas de um período com base em lojas comparáveis). “Com potencial alta no preço dos alimentos, haveria aumento do tíquete médio dos produtos. Assim, a receita por metro quadrado das companhias subiria enquanto a estrutura de custo provavelmente se manteria. É um cenário construtivo para a alavancagem operacional das companhias, impactando as margens favoravelmente”, explica.

Deflação

O segundo semestre de 2023 trouxe um cenário de deflação alimentar e isso impactou o preço da maior parte das ações de atacarejo listadas no Brasil, mas isso parece ter ficado para trás. Por isso, há espaço para uma valorização do setor na Bolsa, ainda mais considerando a expectativa de que a queda da Selic – essencial para que varejistas consigam capitalizar e aumentar as vendas – continuará em curso.

Soares, da Mirae Asset, afirma que Assaí, Carrefour e Grupo Pão de Açúcar (GPA) são mais expostos ao preço dos alimentos, mas “GPA ainda tem questões que fogem do cenário macro, envolvendo o Casino”. Já o Grupo Mateus é um pouco menos exposto, por também ter braço em eletrônicos, diz o analista.

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Em release de resultados, o Carrefour afirmou que “o terceiro trimestre de 2023 foi marcado pela contínua deflação de alimentos, especialmente em commodities, impactando tanto as vendas (como resultado de preços mais baixos) quanto os volumes, à medida que continuamos a ver clientes B2B desestocando, principalmente no início do trimestre, e comprando em padrões mais fracionados, resultando em menor tíquete médio e maior número de tíquetes”.

Já de acordo com release do Assaí, a margem bruta e as despesas da companhia ficaram “em níveis estáveis mesmo diante do cenário deflacionário em alimentos, alto volume de lojas em maturação e despesas pré-operacionais” no terceiro trimestre de 2023 ante o mesmo período de 2022.

O Grupo Mateus, por sua vez, não destrinchou os efeitos da deflação alimentar em release de resultados do terceiro trimestre. E o GPA afirmou no documento apenas que as vendas mesmas lojas cresceram (+7,2%) no terceiro trimestre de 2023 ante base anual com “impulso pelo volume, já que houve forte deflação em alguns itens alimentares (carne, leite, óleo, feijão, entre outros)”.

O analista da Mirae Asset destaca que o GPA pode ter visto impulso de volumes com o cenário deflacionário por ter um público-alvo de renda mais elevada do que atacarejos como Carrefour e Assaí. “O formato do GPA tem proposta de maior valor agregado, com perfil de consumidor diferente. Além disso, tem hortifruti e serviço de padaria também”, avalia.

Procurados pelo Broadcast, o Carrefour e o Assaí não informaram o quanto a categoria de alimentos representa nas vendas, e o Grupo Mateus e o GPA não deram retornos até a publicação desta reportagem.

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Fonte: InfoMoney

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